Sandro de Juca: Reis Malunguinho, Um Trabalho Coletivo
- jornaldoaxe
- 3 de mar.
- 4 min de leitura
Muitos estão me perguntando: Por que o senhor não foi para o desfile da Viradouro sobre Malunguinho? Para responder essa pergunta, precisamos fazer uma retrospectiva.

No início dos anos 2000, fui convidado a participar como coordenador religioso do Quilombo Cultural Malunguinho (QCM), ao lado de João Monteiro e Alexandre Lomi. Encabeçamos um extenso trabalho não apenas para trazer à luz a importância histórica de Malunguinho, mas também para promover a merecida valorização da Jurema Sagrada como uma religião fundamental.
Essa ação contou com a participação coletiva de inúmeras pessoas, entre elas: Sacerdotisas Ana de Aganju, Lúcia Crispiniano, Leônildes, Dona Dora de Oyá, Terezinha Bulhões, Ary Bantu, Tati, Alexandre Dias, Carlos Alberto, Luciene Loice, Juliana Barbosa, Arthur de Iyemanjá, Carlos Tomaz, Ana de Oyá, Wilson, Mísia Coutinho, Felipe Peres Calheiros, Wilson de Oxum, Leandro Tavares, Irani, Prof. Marcus Carvalho, entre tantos outros e outras.
Sei que muitos não citariam meu nome, mas, por caráter e responsabilidade, jamais omitiria os nomes de quem participou desse trabalho coletivo. Tudo isso foi um processo de construção conjunta, que resultou em seminários, documentários, filmes e, inclusive, no maior encontro de Juremeiros e Juremeiras do Brasil – evento que recebeu o nome Kipupa, dado pelo então coordenador Alexandre Lomi.
É essencial compreender que essa trajetória não foi uma obra individual. Além da valorização histórica de Malunguinho, também trouxe à tona a importância do culto à Jurema Sagrada.
Nesse período, enfrentamos muitas humilhações, inclusive de pessoas dentro do nosso próprio meio. Lembro de quando chegávamos a certos eventos e ouvíamos: "Olha esse povo de Malunguinho", em tom pejorativo, desmerecendo nossa presença e movimentação no Estado. Muitas vezes buscamos apoio para o evento e encontramos portas fechadas. Em outras ocasiões, tentaram sabotá-lo, impedindo que o QCM alcançasse seu verdadeiro propósito.
Mesmo assim, fui coordenador religioso do QCM com muito orgulho. E assim como entrei, saí de cabeça erguida, com o senso de dever cumprido. Ainda que hoje esteja afastado da instituição, continuo honrando o nome de Malunguinho e de toda a Jurema Sagrada.
Mas, por que não fui ao desfile da Viradouro?
Em primeiro lugar, só fiquei sabendo que a Viradouro pretendia usar Malunguinho como tema no ano passado, através da neta da saudosa Mãe Terezinha Bulhões, Carol. Ela me ligou perguntando se eu participaria de uma reunião que iniciaria a construção do desfile e a mobilização de sacerdotes da Jurema.
Fui pego de surpresa, pois não sabia de nada até aquele momento. Procurei me informar e participei de uma reunião onde já havia toda uma organização em andamento, incluindo a programação da viagem e a confecção das roupas para o desfile.
No entanto, mais adiante, informei que não poderia participar por questões de saúde. A coordenação do evento explicou que, na última ala, alguns representantes de Pernambuco desfilariam, mas isso exigiria uma viagem de ônibus de Recife ao Rio de Janeiro e, além disso, caminhar por cerca de duas horas durante o desfile. Infelizmente, minha condição de saúde não me permite esse esforço físico.
Até meus filhos, Júlio César e Maria Eduarda, participariam, mas, devido às datas do evento no Rio de Janeiro e seus compromissos profissionais, também não puderam comparecer.
Outro fator que me deixou profundamente descontente foi a forma como a equipe da Viradouro foi recebida em Recife. Eles foram levados para vários terreiros, mas não visitaram o Terreiro de Dona Dora – espaço onde eu realizava as obrigações a Malunguinho, no assentamento do saudoso Seu João Folha.
Ali foi onde tudo começou religiosamente! Nem sequer uma visita ao nosso terreiro foi feita. Para mim, isso foi uma grande falta de respeito, e manifestei essa insatisfação ao João Monteiro.
É importante lembrar que Dona Dora, Iyalorixá e Juremeira, esteve internada no ano passado após sofrer um infarto – fato que foi amplamente comunicado. O Terreiro de Dona Dora teve um papel essencial para o Quilombo Cultural Malunguinho. Lá, até hoje, há uma placa de reinauguração do quarto de Reis Malunguinho, um momento registrado em vídeo e disponível na internet.
Esse terreiro foi fundamental para o resgate histórico de Malunguinho e a valorização da Jurema Sagrada. Mas, quando chegou o momento de prestígio e reconhecimento, não houve sequer uma visita. A participação do terreiro só aconteceu depois de muita movimentação e pressão externa.
O que vejo hoje são muitas pessoas que, no passado, tentaram sabotar os eventos do QCM sendo tratadas com toda atenção e prestígio. E, por outro lado, aqueles que realmente trabalharam pela valorização de Malunguinho e do Kipupa foram ignorados.
Não escrevo este texto porque outros estão fazendo suas reclamações. Já havia dito à minha família que me manifestaria e esperei o momento certo para evitar qualquer implicação indesejada em relação ao desfile. No entanto, é fundamental expor a realidade dos fatos. Participei de um encontro sobre o desfile e percebi imediatamente que tudo o que eu dizia não era bem recebido.
A descaracterização da história real de Malunguinho é inaceitável! A luta por esse reconhecimento não foi individual, mas coletiva. Por isso, é essencial que todos e todas que, direta ou indiretamente, colaboraram para essa causa sejam reconhecidos, tanto no campo acadêmico quanto no religioso.
Malunguinho é da Jurema! A Jurema é Malunguinho!
Fiz esse esclarecimento devido ao grande número de questionamentos e pressões por uma explicação. Tenho qualificação moral e sacerdotal para me manifestar sobre o assunto e reafirmar o compromisso com essa trajetória.
Malunguinho está de ronda! Que ele toque fogo na Avenida, para que a Viradouro tenha um resultado grandioso, e que Malunguinho seja realmente reconhecido! E mais: que possamos inseri-lo no Livro dos Heróis e Heroínas Nacionais! Viva os Reis Malunguinho!
Babalorixá Juremeiro Sandro de Juca Tenda Verde | Axé Ádà Mejí - whatsApp: (81) 9853-7532
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Essa é a voz da resistência! A história real de Malunguinho precisa ser honrada, sempre!
Sandro de Juca, sua coragem em falar a verdade fortalece todos nós! Malunguinho é justiça!
A Jurema é viva, e Malunguinho é força! Esse texto é um lembrete de que nossa história não será distorcida.
Que bom ver a história sendo contada por quem viveu e construiu cada passo dessa jornada. Axé!
Esse texto é um marco! Precisamos reforçar sempre quem realmente fez parte dessa luta histórica.