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O Quebra de Xangô: Uma História de Resistência e Reconhecimento

Foto do escritor: jornaldoaxejornaldoaxe

No dia 2 de fevereiro de 1912, a cidade de Maceió, capital de Alagoas, foi palco de um dos maiores episódios de intolerância religiosa já registrados no Brasil. Conhecido como o "Quebra de Xangô", o evento marcou profundamente a história do povo de matriz africana, deixando feridas que levaram mais de um século para começar a cicatrizar.


Naquele dia, veteranos de guerra e políticos invadiram, depredaram e incendiaram os principais terreiros da cidade. Sacerdotes e praticantes das religiões de matriz africana foram perseguidos, espancados e presos. Entre eles, estava uma das figuras mais respeitadas da época, Tia Marcelina, que foi brutalmente atacada com golpes de sabre e faleceu meses depois devido aos ferimentos.


Por mais de 100 anos, a comunidade afro-religiosa lutou pelo reconhecimento dessa injustiça histórica. Finalmente, um século depois, o governo de Alagoas pediu perdão oficial pelo ocorrido. Desde então, a data é lembrada anualmente, no dia 02 de fevereiro, quando yalorixás e babalorixás, como Mãe Miriam, Mãe Jeane Yara, Pai Célio Rodrigues e Clébio Araújo, saem às ruas para reafirmar a luta contra a intolerância religiosa.


O Reconhecimento da História e o Tombamento da Coleção Perseverança

Em uma conversa com Maicon Marcante, historiador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), ele relatou como ocorreu o tombamento da Coleção Perseverança.


No dia 12 de novembro de 2024, essa coleção foi oficialmente tombada pelo IPHAN e inscrita em três livros: o Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, devido ao seu valor etnográfico; o Livro do Tombo Histórico; e o Livro do Tombo das Belas Artes.


Esse reconhecimento reforça a sacralidade e a ancestralidade dessas peças, representando a memória viva dos ancestrais que, como Tia Marcelina, sofreram a brutalidade do Quebra de Xangô. O tombamento é um passo essencial para preservar essa memória e impedir que a intolerância religiosa continue apagando a história do povo de terreiro.


O Filme "Cartas à Tia Marcelina" e a Luta pela Memória

Outra iniciativa fundamental para resgatar essa história é o filme "Cartas à Tia Marcelina", dirigido por João Igor Macena, estudante da Universidade Federal de Alagoas.

Desenvolvido como projeto acadêmico, o filme surgiu da necessidade de registrar e dar visibilidade às narrativas negras e religiosas frequentemente silenciadas ao longo dos anos.


A pesquisa para o filme incluiu visitas à Coleção Perseverança e um extenso estudo sobre o Quebra de Xangô de 1912. A equipe buscou referências bibliográficas e entrevistou historiadores, sociólogos, lideranças religiosas e representantes do movimento negro para reconstruir os acontecimentos. Como a oralidade desempenha um papel fundamental na cultura afro-brasileira, muitas informações sobre Tia Marcelina e sua trajetória foram obtidas por meio de relatos transmitidos de geração em geração.


O filme também destaca o contexto político da época, revelando como as oligarquias alagoanas usaram o racismo religioso como pretexto para desestabilizar o governo de Euclides Malta. A milícia envolvida nos ataques contava com o apoio de comerciantes, militares, políticos e da imprensa, que disseminaram discursos preconceituosos para justificar a destruição dos terreiros.


Além de resgatar a memória de Tia Marcelina, "Cartas à Tia Marcelina" estabelece um paralelo com a atualidade, denunciando a violência contínua contra a população negra e os terreiros. O filme conta com performances inspiradas na religiosidade afro-brasileira, narrando trechos de cartas que reconstroem o episódio que levou à morte de Tia Marcelina. Também documenta o evento Xangô Rezado Alto de 2024, que celebra publicamente a cultura dos povos de terreiro.


O lançamento do filme em Alagoas aconteceu durante esse evento, e ele foi recentemente contemplado no edital da PNAB de distribuição audiovisual. Com isso, seguirá sendo exibido ao longo de 2025 em sessões públicas e debates, contribuindo para a disseminação dessa história e fortalecendo a luta contra o racismo religioso.


A Luta Continua

Neste dia 21 de março, mais uma vez, o povo de matriz africana tomará as ruas de Maceió para reafirmar a resistência contra a intolerância religiosa. A caminhada representa um compromisso contínuo com a justiça, a memória e a preservação da cultura afro-brasileira.

A história do Quebra de Xangô não pode ser esquecida.


O reconhecimento da Coleção Perseverança e a produção de filmes como "Cartas à Tia Marcelina" são passos importantes para garantir que a memória dos que vieram antes de nós seja respeitada e que a intolerância jamais se repita.


Axé para todos!

Ekedy Nadja Cabral - Ómi Afefé www.federacaoafrobrasil.com.br

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