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60 anos de Malunguinho: história que poucos sabem e falam

  • Foto do escritor: Mestre Kaluanã
    Mestre Kaluanã
  • 25 de mar.
  • 5 min de leitura

Por Mestre Kaluanã – Jornal do Axé - 25/03/25 Após ler a matéria deixe sua mensagem abaixo e comprtilhe com seus amigos. Vamos contar esta história.


Recife, março de 2025 – Entre as raízes sagradas do Ibura, em um terreiro de chão batido e alma ancestral, ergue-se a memória viva de Malunguinho, o Encantado Rei da Jurema. São 60 anos de culto, tradição, resistência e herança espiritual, celebrados com a força da ancestralidade e o compromisso inabalável com a verdade dos que zelam por sua continuidade.


Estive, como sacerdote umbandista e juremeiro, em visita à casa onde essa história pulsa há décadas. Fui recebido com reverência e café quente pela iyalorixá e mestra juremeira Dora de Oyá, e pelo babalorixá e juremeiro Sandro de Jucá, ambos herdeiros espirituais de uma das linhagens mais respeitadas da Jurema no Nordeste. Nessa entrevista exclusiva, revelaram memórias, dores e vitórias do templo conhecido como Ilê Oyá Egunità / Terreiro Mensageiros da Fé — um verdadeiro bastião da tradição de Malunguinho.


O tempo é senhor da memória. E quando o tempo encontra um chão sagrado, ele vira história. No coração do Ibura, em Recife, um terreiro guarda há seis décadas um segredo sussurrado pelas matas, pelas folhas e pelas rezas: a história viva de Malunguinho, o Encantado Rei da Jurema, cultuado com respeito, fé e resistência pela mesma família há 60 anos.


Essa não é apenas uma celebração de calendário. É um marco espiritual, cultural e ancestral de um culto que sobreviveu a perseguições, à dor e às investidas do esquecimento — mas nunca perdeu sua raiz.


Poucos conhecem essa história. Menos ainda sabem como ela se sustenta. Por isso, cruzei caminhos, folhas e fumaça até o Ilê Oyá Egunitá / Terreiro Mensageiros da Fé, na Rua Fernandes Belo, 611 – Ibura, para conversar com os dois pilares vivos dessa tradição: a iyalorixá Dora de Oyá, matriarca do terreiro, e o babalorixá Sandro de Jucá, que compartilham comigo, de coração aberto, os bastidores e mistérios da continuidade do culto a Malunguinho.


Entrevista com Dora de Oyá – A Matriarca da Tradição

Madrinha Dora e seu Cachimbo Sagrado
Madrinha Dora e seu Cachimbo Sagrado

O relógio marca quase 8h da manhã quando chego ao terreiro. A brisa da mata ainda toca os panos brancos estendidos na frente da casa. Sou recebido com um café forte e pão de queijo feito no fogão à lenha. Dora de Oyá me espera sentada sob a sombra do pé de jambeiro. Ela me olha como quem já viu o tempo passar várias vezes. A entrevista começa assim, como uma conversa entre velhos conhecidos que respeitam o silêncio da mata e a fala dos encantados.


Mestre Kaluanã: Mãe Dora, são 60 anos de história. O que essa celebração representa para a senhora?

Dora de Oyá: Representa tudo, meu filho. Porque essa casa não nasceu de vaidade nem de curiosidade. Ela nasceu do chamado. Malunguinho pediu pra ficar, e a gente acolheu. Aqui não é terreiro de vitrine, é terreiro de raiz. Sessenta anos de promessa cumprida, de dor vivida e de fé que não se dobra.


Mestre Kaluanã: Como começou essa história?

Dora de Oyá: Começou antes mesmo de chamarem de “terreiro”. Meu esposo, Seu João Folha, já fazia seus trabalhos aqui nesse chão. Era um homem de fé profunda, mesmo sem se manifestar. Ele dizia: “o Deus dele era Malunguinho”. Rezava, acendia vela, limpava o chão com folhas e recebia o povo sofrido.  Foi o Pai de santo dele seu Grivaldo que sentou a trunqueira do Malunguinho dele e agora completam 60 anos de culto. E quando do seu falecimento nos entregou a missão de dar continuidade. Quando do falecimento de meu esposo, dei continuidade e minha filha é guardiã do axé. lembrando que Eu e eles fomos iniciados na Jurema e no orixá.


Mestre Kaluanã: Foi difícil manter tudo isso?

Dora de Oyá: Foi e ainda é. Porque não é só manter o terreiro, é manter a memória. Muita gente hoje esquece que por trás de um encantado tem uma história. Aqui, cada folha plantada tem nome, cada objeto tem ancestral. Já ouvi dizer que eu sou “antiga demais”, que minha forma de fazer é ultrapassada. Mas eu digo: ultrapassado é quem esquece de onde veio. Aqui o respeito é nossa doutrina.


A Escolha de Mary e a Reconsagração de Malunguinho

Um Momento de fé e Esperança
Um Momento de fé e Esperança

Mestre Kaluanã: E como foi a escolha da nova herdeira de Malunguinho?

Dora de Oyá: Ah, isso foi o próprio Malunguinho que escolheu. Desde pequena, minha filha Mary já se manifestava com ele. Eu via e sentia. Ele dizia pra mim em sonho: “é ela que vai segurar meu axé.” A confirmação veio no tempo certo. Fizemos a reconsagração com todos os rituais, todas as oferendas, tudo como manda a tradição. Foi um momento de muita emoção. Ele dançou, comeu, bebeu, agradeceu... foi lindo. E foi aí que entendi: o ciclo estava se renovando, mas sem se romper.


Mestre Kaluanã: E o terreiro segue firme?

Dora de Oyá: Segue. Mesmo com as dores. Porque tem dor. Tem filha que quis fechar a casa, dividir como se fosse herança de fazenda. Gente da família que virou evangélica e quis me arrancar da minha fé. Mas eu me agarrei nos encantados. E com Sandro de Jucá ao meu lado, seguramos essa bandeira.

Entrevista com Sandro de Jucá – Guardião do Axé e da Palavra

Sandro de Juca com seu Cachimbo
Sandro de Juca com seu Cachimbo

A entrevista com Sandro acontece no salão dos Orixás. O cheiro de defumador ainda paira no ar. Ele veste branco, colares discretos e olhos firmes. Seu tom é calmo, mas firme como quem sabe o valor do que carrega.


Mestre Kaluanã: Pai Sandro, qual o maior desafio em continuar essa tradição?

Sandro de Jucá: Manter o respeito. Porque hoje em dia se faz terreiro como se abre comércio. Aqui não. Aqui a gente recebeu o axé direto do fundador. Seu João Folha me entregou a missão de cuidar dos rituais e orientar o povo. Não sou dono da casa, sou servidor do axé. Tudo que fazemos tem fundamento, tem propósito. Cada saudação, cada folha, cada toque.


Mestre Kaluanã: E como foi a reconsagração que o senhor conduziu?

Sandro de Jucá: Foi uma das cerimônias mais fortes que já vivi. Malunguinho veio com força, falou com voz firme, apontou Mary como sua zeladora. Disse que estava “muito satisfeito com as oferendas”. A energia daquele dia foi algo que não se explica, só se sente. Ele se manifestou, se emocionou. E nós só agradecemos.


Mestre Kaluanã: Como vê o futuro da casa?

Sandro de Jucá: O futuro está nos mais novos. Por isso, criamos laços com irmãos de axé que compartilham da mesma responsabilidade. A Jurema não pode ser esquecida. Os objetos rituais, os segredos, os ensinamentos... tudo precisa ser passado com verdade. E a gente vai continuar firme. Porque aqui é chão sagrado.

Convite à Comunidade – Celebração dos 60 Anos de Malunguinho

O CONVITE - PARA SER COMPRTILHADO
O CONVITE - PARA SER COMPRTILHADO

Ao final da conversa, enquanto Mary prepara o altar com flores vermelhas, Mestre Kaluanã se despede, agradecido por testemunhar tamanha força espiritual. A fé pulsa em cada canto do terreiro. As folhas dançam ao vento como se fossem abençoadas pela própria mata. E a voz de Malunguinho, mesmo invisível, ecoa no coração de quem crê.


Com muito axé, o Ilê Oyá Egunitá / Terreiro Mensageiros da Fé, sob o comando espiritual de Dora de Oyá e Sandro de Jucá, convida toda a comunidade juremeira, umbandista, e os irmãos e irmãs de fé para a celebração dos 60 anos de Malunguinho:


🎉 FESTA DE 60 ANOS DE MALUNGUINHO

📍 Rua Fernandes Belo, 611 – Ibura – Recife – PE📅 30 de Março (Domingo)🕒 15h

João Folha – In Memoriam


“A Jurema abala, e seus discípulos não tombam.”

Que assim seja e continue sendo por mais 60 anos e além.


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Fotos enviadas por Sandro de Juca e Madrinha Dora - Tiradas pelo Quilombo Cultural Malunguinho

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