Na última semana de março, Salvador premiou algumas das mulheres negras que fazem história dentro de suas comunidades e da própria sociedade brasileira, destacando-se na luta pela sobrevivência e contra o preconceito. Assim foi a
2ª edição do Seminário Mulheres de Ontem, Hoje e Sempre, que teve palestras, lançamento de livro e muita exaltação às mulheres negras brasileiras. Em seu segundo ano, o projeto tem sempre por finalidade promover temas nos quais se destaquem as ações e conquistas das mulheres negras e indígenas para a sociedade brasileira.
Com o tema - A mulher e suas conquistas históricas - as professoras Vilma Reis e Leliana de Souza abriram o Seminário e mais do que elogiaram, exaltaram dezenas de mulheres que nunca se cansaram de lutar por espaço e conquistas. Dentre as várias personalidades citadas, vale destacar Pagú, Nísia Floresta, Lélia Gonzalez e Luíza Bairros. Mulheres do passado e presente que simbolizam na própria vida a vitória na luta feminina por liberdade e igualdade.
A professora Vilma Reis instigou aos presentes, dizendo que "devemos citar as mulheres negras nos trabalhos acadêmicos e valorizar a difícil chegada da mulher negra na universidade", citando a difícil relação da mulher com o mercado educacional. E ainda citou |
|
|
Lélia Gonzalez, sobre a imposição que as mulheres negras devem sempre ter e nunca abaixarem a cabeça, sempre na luta em busca do que almejam: "
as mulheres negras devem ter nome e sobrenome senão o racismo bota nome por nós", disse ela.
Troféu Zeferina: a força das mulheres na comunidade
No encerramento do Seminário, na quinta-feira, aconteceu a entrega do Troféu Zeferina. Evento no qual dez mulheres foram contempladas com a premiação do Troféu. Elas ganharam o prêmio através da seleção que analisou a contribuição e as ações de cada uma das concorrentes dentro de suas comunidades.
O Troféu Zeferina foi criado em 2006 com o intuito de viabilizar o reconhecimento de mulheres negras e indígenas que se destacam na luta pela melhoria de suas comunidades, premiando aquelas que tenham ou tiveram um papel relevante nas áreas de religiosidade, cultura, educação, ciências ou movimentos populares no estado da Bahia. De acordo com o professor Vilson Caetano, idealizador do Troféu, "é importante dar visibilidade às mulheres que marcam e marcaram suas comunidades. E depois, o prêmio serve pra valorizar e promover as populações negras e indígenas, pois trabalhamos a identidade e a auto-estima desses grupos".
 |
Uma curiosidade é que muitas comunidades estão pedindo para que o Troféu Zeferina torne-se nacional, pois até agora, só participam da seleção mulheres negras e indígenas do estado da Bahia. Segundo o professor Vilson, essa vontade pode ser realizada, mas antes "devemos procurar parceiros", diz ele. E completa, "continuaremos com o critério de sempre premiarmos mulheres simples, pobres, mas que têm uma sabedoria reconhecida. Nenhuma delas freqüentou a universidade, mas tem o saber reconhecido dentro de suas comunidades e isso é tão importante quanto o conhecimento das ciências universitárias". O evento procura sempre desenvolver um debate com a sociedade, mostrando as conquistas e as histórias de mulheres negra se indígenas que por
|
|
algum motivo, ainda se encontram no anonimato. E essa é uma forma de reconhecimento de todas as mulheres através da líder Zeferina. Uma negra que lutou à frente do Quilombo do Urubu, área hoje denominada Parque de São Bartolomeu que se estende até o atual bairro do Cabula, em Salvador. E que, a exemplo de tantas outras mulheres negras, seu nome tem sido mantido no anonimato.
Conheça as contempladas:
América do Carmo Santana Cabral - Mãe América - do Terreiro Ilê Axé Ogunjá Tiluaiê Orubaia. Em sua vocação, mãe América destaca o carinho e desejo de ajudar os doentes e pobres, foi esta opção que tornou próxima de Irmã Dulce, a quem considera uma das melhores amigas.
Carmelita Luciana Sousa - Nengwa Xagui - do Terreiro Tumbancé. Possui 77 anos de Idade e 70 anos de iniciação, mais de 40 filhos de santo, continua com a mesma fé, alegria e disposição de outrora para servir aos Bakise, e todos aqueles que batem à porta do Terreiro.
Hilsa Rodrigues Pereira dos Santos - Néngüa de Inkisse - do Terreiro Matamba Tombenci Neto. A indicação de Néngüa de Inkisse do Terreiro Matamba Tombenci Neto se deu pela sua atuação nas áreas religiosas, cultura, educação e nos diversos movimentos relacionados à promoção dos direitos humanos e da igualdade racial.
Isabel Ribeiro da Conceição - do Instituto de Pesquisa, Estudo e Ensino da Cultura do Nordeste. Nascida em 4 de abril de 1924 em Antonio Cardoso, dona de casa, mãe, esposa, parteira, benzedeira, rezadeira, ceramista, costureira, lavradora, Mãe de Bule-Bule.
Luiza Franquelina da Rocha - Gaiaku Luiza (in memória) do Terreiro Rumpame Ayono Runtológi. Sacerdotisa do Candomblé de nação Jeje Mahin, consagrada ao Vodum Oyá, nasceu em 25 de agosto de 1909 e faleceu em 20 de junho de 2005, na cidade de Cachoeira, Recôncavo da Bahia.
Egbommi Cidália Soledade - uma das poucas filhas do orixá Iroco da Bahia. Era neta de dona Francelina e já desde cedo a sua avó sabia que sua neta seria filha do orixá Iroco. No ano de 2007, Egbomi Cidália completa setenta anos de iniciação e é considerada um patrimônio cultural afro brasileiro vivo.
Marilene Brito do Sítio - da Associação Comunitária da Vila São José. Atualmente desenvolve projeto de arte-educação com crianças e adultos na Vila São José, promovendo o resgate das tradições populares e a valorização da auto-estima da comunidade como a bata do feijão, a amarra do fumo e as cantigas de plantio.
Marlene Alves dos Santos - Conselho Indigenista Missionário e Frente de Resistência e Luta Pataxó. D. Marlene Pataxó como é conhecida, se destacou como liderança do seu povo em 1999, com a retomada do Monte Pascoal e com o processo desencadeado pelos Pataxó para recuperação do seu Território Tradicional, invadido por fazendeiros, Ibama e empresas de Celulose.
Zilda Maria de Jesus - do Movimento Curador/Grãos de Luz e Griô. Nasceu no dia 28 de dezembro de 1952 no povoado de Remanso, remanescente de Quilombo, as margens do Pantanal do Morimbus, município de Lençóis/Chapada Diamantina. Dona Zilda é curadora, parteira e líder espiritual dentro da comunidade onde mantém viva a tradição do Jarê, desde 1999, quando assumiu o lugar de seu pai logo após sua morte.
Núbia Tupinambá - Atualmente é funcionária da FASE Bahia - Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, sediada em Itabuna-BA. Conhecida também como Nubiã- nome tupi que designa um instrumento de sopro tocado pelos Tupinambá para reunir o Povo em Assembléia -, é uma índia tupinambá de Olivença, nascida em Ilhéus-BA. Formada em Pedagogia pela Universidade Estadual de Santa Cruz, também em Ilhéus, ela teve papel fundamental no processo de etnogênese dos Tupinambá de Olivença.
Livro conta a vida das Mulheres Negras na Bahia do século XIX
Também dentro do Seminário, aconteceu o lançamento do livro Mulheres Negras na Bahia do século XIX - de autoria da professora e historiadora Cecília Conceição Soares.Cecília Conceição Moreira Soares é historiadora formada pela Universidade Federal da Bahia e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Atualmente, é Professora da Universidade Estadual de Feira de Santana - Bahia (UEFS) e da Universidade Católica de Salvador. Desenvolve pesquisas sobre a mulher negra na Bahia: Gênero, Memória, Religiosidade Afro-brasileira e Identidade. É membro do Núcleo de Estudos sobre a mulher Mulieribus/UEFS e do Núcleo Cultura, Poder e Memória/UCSAL.
Resultado de uma dissertação de mestrado na qual se abordou vários aspectos das mulheres negras na sociedade baiana e tendo em vista a ausência de estudos sistemáticos nessa área, o surgimento da obra é de relevante importância ao estudar as questões sobre o cotidiano das mulheres negras no período escravista do século XIX. E não trata apenas da mulher negra, mas sim de todas as populações negras no Brasil, através da descrição das lutas, conflitos e negociações que mulheres |
|
|
negras, mestiças e pobres engendraram na Bahia do século XIX para conquistar e depois, manter a sua liberdade e inserção numa sociedade racista e machista. A Fundação Cultural Palmares/MinC patrocinou a edição e impressão da publicação.
fonte:
http://www.palmares.gov.br/sites/000/2/Mailings/2/15/Mailing15.htm