A escola nasceu de uma conversa entre amigos no Bairro de Agenor de Campos, em Mongaguá. Apresentando-se como bloco nos três primeiros anos, passou a ser, em 2006, oficialmente, “Escola de Samba Acadêmicos Deixa Que Eu Bebo”. Com quase 450 integrantes, reverenciou os orixás dos cultos afro-brasileiros com alas compostas por 30 integrantes cada.
As alas reverenciaram Oxoce, Euá, Oçaim, Iançã, Iemanjá, Oxum, Ogum, os Caboclos, os Erês, além da ala das Baianas. Todas sambando sob o som da bateria representando o Orixá Xangô. Para coordenar as atividades foi convidado o carnavalesco guarulhense Mirandinha, famoso por seus trabalhos criativos e inusitados.
Problemas? Inúmeros, como não poderia deixar de ser. A começar pelos ensaios. Como reunir tantas pessoas se a escola não tem espaço para ensaio? Local para encontros: a casa do presidente da escola. Montar os carros alegóricos sob o sol escaldante do litoral foi realmente um trabalho de gigantes. Muito trabalharam (e sofreram) o presidente da escola Baianinho Nova York e os carnavalescos “Tim Maia” ( como ficou conhecido Mirandinha) e
D. Pérola, além de outros, para verem a escola na avenida.
Outro problema a ser enfrentado foi a dificuldade de arregimentar pessoas para o desfile. A cidade é pequena e convencer os habitantes a participarem não é assim tão fácil.
Preconceito e, quem sabe, vergonha são quesitos difíceis de serem vencidos. Veja um exemplo: nas atividades religiosas, os Exus e Pombojiras (Bará ou Elegbará) são as divindades que abrem e fecham os trabalhos. O carnavalesco optou, então, pelo fechamento do desfile pela ala representado essas entidades. Porém, por indevida associação dessas entidades ao Diabo que só acontece no Brasil! pelo catolicismo e abraçada pelo protestantismo, criou-se, por medo e ignorância, uma pecha negativa em torno delas e, daí, acentua-se a dificuldade das pessoas aceitarem essas entidades, embora as reverenciem nos cultos. Achar quem se propusesse a paramentar-se dessas entidades foi difícil.
A convite dos carnavalescos, o pai pequeno Emmanuel e a mãe pequena Yonar, do “Templo Caboclo Sete Matas”, em Bonsucesso, Guarulhos, e autorização da Ialorixá Iraci, encararam com sucesso a missão (ele, para tanto, deixou até a barba crescer). Eles desfilaram como destaque na ala que homenageou essas entidades, fechando o desfile. Agora, vejam só a grande ironia: o culto dos ancestrais é marca preponderante nos cultos Afro-Brasileiros. Abdicamos de nossa cultura e abraçamos a cultura de outrem, que nos é imposta. Assim sendo, o colonizado passa a defender a bandeira do colonizador em detrimento de sua própria cultura. Oxalá dê forças aos integrantes da “Escola de Samba Acadêmicos Deixa Que Eu Bebo” para continuarem na luta por verem sua escola crescer ( e a nós, para continuarmos defendendo nossas crenças). Parabéns a eles é pouco para manifestar nossa gratidão em defender a cultura Afro-Brasileira e, porque não dizer, nossa religião! Para fechar com chave de ouro a ironia expressa neste artigo e no evento citado (que é, na realidade, a ironia das ironias): este ano, 2007, é regido por Omulu e Iançã, que trabalham, principalmente, com o auxílio das entidades Exus e Pombojiras! Laroiê, Exu! Exu Omojibá!
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